PRA SAIR DE CASA | Exposição no MIS transporta visitante ao universo de Renato Russo

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A rebeldia de Kurt Cobain e Sex Pistols, a desesperança de Aldous Huxley, o mistério de Agatha Christie, a classe de Beethoven e Villa-Lobos, o espírito festivo dos Beatles, a tristeza de Morrissey e um quê de pop dos Menudos. Estes, entre outros mil e um elementos, fazem parte da personalidade de Renato Russo, tema da mais nova exposição do Museu da Imagem e do Som, que abre ao público no feriado da Independência (confira todos os detalhes de serviço abaixo).

 A mostra promove um passeio pelo universo do multifacetado artista, desde quando era criança até chegar ao Legião Urbana, mostrando ao visitante os diversos perfis nos quais ele se enquadrava (mesmo fazendo esforço parar não se enquadrar em nada, nunca). Do fazedor de listas racional ao emotivo e místico dos signos, passando pelo meticuloso planejador, pelo nerd em música, pelo ávido leitor e pelo acumulador de coisinhas (quem nunca?). 

Inclusive, é graças a este jeito de guardar tudo - e a seu filho único, Giuliano Manfredini, que procurou pelo então diretor do MIS, André Sturm, em 2014 - que a realização da mostra foi possível. Mais de mil itens, que se encontravam no antigo apartamento de Renato, em Ipanema, estão dispostos pelo espaço do museu. São boletins de escola, fotos antigas, camisas floridas, camisetas de bandas de rock (Nirvana e Bowie, por exemplo), pôster do filme "Ata-me" de Almodóvar, livros, discos e pequenas esculturas de anjos alguns dos objetos encontrados praticamente intactos na última residência habitada pelo artista. 

Mas muito mais do que itens que agradam a fãs e colecionadores, como guitarras e discos de platina, um dos aspectos mais interessante é poder ler textos e manuscritos até então desconhecidos pelo público, o que de fato leva o visitante o mais próximo possível da labiríntica mente de Renato. 

De um lado, uma redação que o artista escreveu quando estava na faculdade de comunicação, que falava sobre a sorte de achar dinheiro no bolso da calça e partir para o Conjunto Nacional comprar discos de vinil. "Beach Boys ou Jefferson Airplane?", indagava. 

Por outro lado, também é possível se conectar a um Renato Russo sensato e lúcido no período em que se encontrava internado por conta das drogas. Neste excerto, escrito em uma lauda, ele destilou sua angústia com relação a ser taxado de louco, a sua atração por homens recém-assumida publicamente, à maneira como atua a grande mídia brasileira, entre outras reflexões. Um verdadeiro ensaio sobre a sociedade e suas mazelas que permanece(rá) irretocavelmente contemporâneo. 

O tom místico de Renato Russo também fica evidente ao ler o rodapé de diversas letras de músicas, onde é possível notar os escritos "under pisces", ou "under gemini" - que, em português, significam "em Peixes" ou "em Gêmeos". Para quem gosta de Legião Urbana e de signos é um prato cheio, já que tais anotações revelam sob influência de quais astros estava Renato ao escrever determinadas canções. A clássica "Eduardo e Mônica" foi escrita durante alguns meses, pegando as influências do Sol em Gêmeos e em Câncer. Cá entre nós, levando em conta a história do casal, não é que faz um tanto de sentido? 

Sendo você fã ou não de Renato Russo, Legião Urbana e todo o movimento do rock dos anos 80 no Brasil, a visita vale a pena. Mais do que curiosidades ou efeitos fantásticos, a exposição cumpre importante papel ao preservar parte da memória e da cultura de nosso país e atua na manutenção de legados históricos, artísticos - e por que não políticos? - de uma geração que falava de questões que ainda lutamos hoje: liberdade, sexualidade e oposição a qualquer forma de preconceito.