GRÁTIS | Exposição Basquiat coloca interrogações sobre os limiares da arte

Cultura

Por Ricardo Flaitt – Qual o limiar entre arte e o mero rabisco? Esse é um dos questionamentos que o visitante da exposição Basquiat, até sete de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil, vai projetar na mente.

Jean-Michel Basquiat foi morador de rua e sua arte surgiu nos muros e paredes de Lower Manhattan entre 1977 e 1979 com o pseudônimo de Samo, escrevendo frases enigmáticas. As primeiras manifestações de Basquiat pintam em nossos neurônios os limites entre a pichação e a arte formal.

Ainda que não se considerasse um grafiteiro, é inevitável a proximidade de sua arte com as expressões da arte de rua.

Eis outra questão que se levanta: até que ponto pichar uma frase em um muro, ou a frase numa tela, eleva à condição de arte? Pergunta que se desdobra em muitos ângulos e visões desde que Marchel Duchamp pegou um mictório produzido em escala, assinou e peça acabou em exposição de museu. Seria o espaço também carregador de significados para além de um produto manufaturado? É ampla a discussão...

Para compreender Basquiat faz-se necessário contextualizá-lo ao cenário multicultural da Nova Iorque do final dos 70 e começo dos 80, momento de onde convergiam tendências: punk, new wave, hip-hop, consumismo, poesia, pop art.

Quando migrou das paredes das cidades para as telas, Basquiat fundiu tudo o que deitava em seus olhos e em seus ouvidos.

Conciliou desenhos, tinta acrílica com spray, colocou frases nos quadros, anatomia humana, em desenhos que foram enquadrados como neoexpressionista, nomenclatura chique para uma arte mais bruta, sem as obrigações com os padrões formais, subjetiva, que incorporava materiais à tela além da tinta ou mesmo se manifestava em objetos como uma pilha de pneus.

Além de buscar definir a linha invisível o que pode e não pode ser considerada arte, o que se vê em Basquiat é uma explosão de cores, traços fortes, ora raivosos, ora pueris.

Basquiat conviveu de perto com Andy Warhol, artista gráfico que levou a publicidade à condição de arte (outro dilema para quem procura definir o que é arte). A fusão de Basquiat com Warhol desdobrou-se em obras que fundiram os conceitos da pop arte com o neoexpressionismo de Basquiat.

Ainda que se procure distinguir a obra do autor, a inserção de um artista negro, de rua, nas principais galerias, universo predominantemente burguês, branco e elitista, irradiou a discussão racial, ponto de incômodo do artista.

Outra interrogação se estabelece entre a questão racial, o que é arte e a sociedade de consumo: até que ponto o universo elitista do mundo da arte, em que os ricos encontram tempo e possuem a grana suficiente para contemplar o mundo e carregá-lo de significados, somado ao consumismo que transformar tudo em produto, não transformaram Basquiat em elemento exótico a ser explorado como a nova tendência, uma vez que existiam - e existem - milhares de Basquiats pelas cidades do mundo?

Arte ou não, grafite ou pichação, fato é que Basquiat pela sua história de vida e, sobretudo, pela sua forma de se expressar, quebrou paradigmas na forma, no conteúdo e na questão dos negros no protagonismo estético cultural.

A arte de Basquiat contrapõe-se aos conceitos de quem determina expressão artística somente o belo ligado ao ideal de perfeição. Podem-se questionar as formas e os conteúdos, mas se arte também está no efeito contestador, provocador e transformador, as obras de Basquiat rompem limites, reflete um período e nos preenche questionamentos, pontos de partida para refletir a vida.

SERVIÇO

Exposição Jean-Michel Basquiat

Até 7 de abril

De quarta a segunda, das 9 às 21 horas

Centro Cultural Banco do Brasil

Rua Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo/SP

Próximos às estações Sé e São Bento do Metrô

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