TERCEIRA IDADE NO BRASIL | População envelhece e mercado não acompanha

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Valor Econômico - A professora aposentada Aurora Caetano Martins, 67 anos, ingressou há dois anos no Grupo Pão de Açúcar como empacotadora na loja Voluntários da Pátria, em Botafogo, Rio de Janeiro. Hoje é consultora de cliente. Entre suas funções, está ouvir reclamações e buscar soluções, apresentar novos produtos, promover degustações e organizar eventos. "Estou feliz, sinto que tenho muito a realizar e que posso ser exemplo aos mais jovens", diz Aurora. Igualmente importante, afirma, é que o salário no supermercado complementa sua aposentadoria, somando uma renda de quase R$ 6 mil. "Consigo manter um bom padrão de vida."

No Grupo Pão de Açúcar (GPA), os contratados com mais de 55 anos de idade formam 2% da força de trabalho que tem uma base de 140 mil pessoas. Eles ocupam as mais diversas funções, de atendentes a gerentes de loja. Antônio Salvador, VP de recursos humanos do GPA, diz que é importante para os negócios ter uma equipe socialmente diversificada, que reflita o perfil do público. "Gera empatia com o consumidor, nos permite entender melhor os interesses dos clientes e reagir rapidamente às novas demandas", diz. 

Mas Aurora Martins e o GPA são exceções. O estudo "Síntese de Indicadores Sociais 2016", do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstra a dificuldade do idoso no mercado de trabalho. Entre 2005 e 2015, a proporção de idosos de 60 anos ou mais na população do Brasil passou de 9,8% para 14,3%. Ao mesmo tempo, observou-se uma queda no nível de ocupação dos idosos de 30,2% para 26,3%. Entre os ocupados, 71,8% recebem até dois salários mínimos. No final de 2015 eram 30 milhões os brasileiros com 60 anos ou mais e 24,5% não recebiam aposentadorias ou pensões. 

Outro levantamento do IBGE, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad) trimestral, demonstra que no final do ano passado 6,8 milhões de idosos faziam parte da força de trabalho do país e entre eles o desemprego é de 3,4%. 

A pesquisadora Ana Amélia Camarano, especialista em demografia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que o desalento é mais forte entre os mais velhos e muitos que se encontram nessa situação desistem de buscar emprego e, por vergonha da situação, não se declaram desempregados, não sendo assim detectados pela amostragem. São os "nem nem maduros", numa referência aos jovens que nem trabalham nem estudam. A versão madura é formada por homens entre 50 e 64 anos que nem trabalham nem estão aposentados. A estimativa é que mais de dois milhões de pessoas estão nesta situação. 

Ana Camarano diz que a população brasileira está envelhecendo, mas o mercado de trabalho não se adaptou para agregar os mais velhos. "Há muito preconceito contra eles", afirma. Aos olhos do empregador, o idoso é um trabalhador com menos vitalidade e força física e menor mobilidade. 

Outro problema, entre as pessoas com 60 anos ou mais inseridas no mercado de trabalho, a média de estudo é de 5,7 anos, entre os mais jovens, de 15 a 29 anos, essa média é de 10,1 anos. A rápida transformação tecnológica também é vista como uma barreira. "Se o país quer elevar a idade mínima de aposentadoria, terá que criar as condições, por meio de incentivos, para que o mercado de trabalho absorva os idosos, hoje isso não ocorre", diz a pesquisadora. 

Ricardo Basaglia, diretor executivo do Page Group, empresa especializada em recrutamento com escritórios em 35 países, diz que o empregador brasileiro tem uma visão mais preconceituosa do que a média internacional em relação aos profissionais mais velhos que não alcançaram uma posição de liderança. 

Por outro lado, o profissional brasileiro também apresenta uma menor disposição em investir, por conta própria, no desenvolvimento de sua carreira por meio de cursos de atualização profissional ou mesmo por estudos complementares. "A barreira da idade é muito menor para o profissional qualificado que se mantém atualizado", diz. 

Segundo Basaglia, desde o início da crise no país, é perceptível uma disposição maior nas empresas por contratar profissionais mais experientes, que apresentam resultados rapidamente. Mas a recolocação dos mais velhos com baixa qualificação se tornou ainda mais difícil. 

A pesquisadora Márcia Halben Guerra, da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), de São Paulo, diz que os trabalhadores idosos com maior escolaridade conseguem se manter no mercado de trabalho por mais tempo, uma vez que geralmente exercem funções menos extenuantes. Entre os idosos com baixa qualificação, os principais empregadores são a indústria da construção, no caso dos homens, e o de serviços doméstico, entre as mulheres. "São atividades que demandam grande esforço físico, portanto as oportunidades são menores de acordo com o avanço da idade, principalmente depois dos 64 anos", diz Márcia.