FUTURO? | Após um ano morno, previdência privada deve crescer em 2019

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Mercado aposta que reforma fará investidor olhar para a aposentadoria complementar

Danielle Brant / NOVA YORK / Folha SP - Depois de um ano arrastado para a previdência privada no Brasil, com as incertezas eleitorais e o juro em um dígito turvando o cenário para investimentos, o setor deve ganhar novo fôlego em 2019, com a retomada das discussões sobre as mudanças na aposentadoria oficial.

Neste ano, as turbulências domésticas, entre elas uma paralisação de caminhoneiros que pegou todos de surpresa no segundo trimestre e contribuiu para a desaceleração da economia brasileira, acabaram afetando a captação líquida dos planos de previdência.

Até outubro, a diferença entre os depósitos e os resgates desses planos estava positiva em R$ 28,5 bilhões. O número representa uma queda de 35,87% em relação ao mesmo período de 2017.

O ano passado, porém, foi atípico; teve captação superior à média histórica pelo otimismo com o governo de Michel Temer.

A desaceleração em um ano eleitoral não surpreendeu, afirma Carlos André, vice-presidente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Ainda assim, o mercado estava despreparado para o que, de fato, aconteceu.

"A magnitude de volatilidade foi acima da média. A gente teve períodos eleitorais com volatilidade elevada, comparável com 2002 [ano da primeira eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva]", diz.

A instabilidade também ocorreu antes do tempo. "Vimos uma antecipação de discussões dos cenários eleitorais. Era um comportamento esperado para o segundo semestre do ano, mas já vimos o fenômeno a partir de maio", complementa.

Apesar da volatilidade, não houve saída de participantes de planos de previdência aberta, o que já aconteceu em momentos de turbulência no passado.

Muitos participantes, no entanto, decidiram resgatar dinheiro dos planos para apagar incêndios no orçamento.

O alto endividamento das famílias, em um cenário de desemprego alto, ainda em dois dígitos --a taxa fechou o trimestre encerrado em outubro em 11,7%, segundo o IBGE--, contribuiu para a desaceleração da captação, afirma Myrian Lund, planejadora financeira da associação Planejar.

"Há uma dificuldade de poupança das famílias. As famílias vão pedalando até a hora que não conseguem mais", diz.

"Enquanto pedala, o investidor paga a previdência. Mas, quando quebra de vez, tira o dinheiro do plano."

Em meio a isso, ainda deve ser incluído o que Edson Franco, presidente da Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), considera o principal fator de influência para a menor captação no acumulado do ano: a taxa Selic de um dígito.

O juro baixo afetou a rentabilidade dos planos que investem em fundos de renda fixa e que respondem por 87,2% do total no mercado.

Até setembro, os fundos de previdência de renda fixa acumulavam valorização de 4,1%. A Selic começou o ano em 7% e, desde março, está em 6,5%.

O mercado prevê que fique em 7,75% no ano que vem.

"A queda da taxa de juros gera um movimento maior de diversificação de investidores em busca de retorno maior", diz Franco. "O mercado de previdência privada aberta ainda é visto pelos clientes como um produto de natureza mais conservador."

Ainda assim, já é possível perceber o início de uma migração para ativos mais arriscados, como no crescimento dos planos que investem em fundos multimercados. Em 2016, eles representavam 5,7% do total. No ano passado, eram 8,1%. Até setembro, já estavam em 9,8%.

"O que o brasileiro vai precisar aprender em algum momento é que ele vai precisar diversificar os investimentos", diz o executivo da Fenaprevi.

Marco Barros, presidente da Brasilprev, vê o cenário como uma oportunidade para o participante se expor a mais risco para obter mais retorno.

"Desde que tenha disciplina, vai capturar as variações médias para cima ou para baixo."

A retomada das discussões sobre a reforma da Previdência deve fazer com que as pessoas voltem a olhar para os produtos de aposentadoria complementar e a reforçar a captação dos planos, avalia.

"Há uma conscientização de que o estado não vai conseguir manter os cidadãos. Nós esperamos que continue havendo um aumento das reservas e da quantidade e participantes", diz.

O problema é demográfico, afirma. "É uma questão de envelhecimento da população. Temos hoje oito trabalhadores na ativa para sustentar um aposentado, e isso vai cair para dois em 2060 se nada for feito. Tem uma cortina de fumaça, um ambiente confuso na cabeça das pessoas."

É a mesma expectativa de Marco Barros, da Brasilprev. "A sociedade deve se conscientizar de que precisa repensar as condições de viver mais tempo e com qualidade", diz.